
Fidel está morto? Havana está viva, quente e eloqüente. Extremamente movimentada, a madrugada da cidade revela uma vida insuspeita. Longos deslocamentos a pé reúnem pessoas em diversos pontos, em frente a teatros magníficos, boites, cafés cantantes. De dia, calçadas repletas, feiras, filas. Havana é vaidosa e do luxo de seu barroco-espanhol espreita-se a vida íntima das casas que se estendem nos portais de suas ruas abrigadas de sol e chuva, onde se movem pessoas falantes, curiosas, espertas. Um lugar perfeito para um flanêur. Caminhar, perder-se, encontrar-se. É exótica e familiar, é linda, triangular, invadindo um azul denso de um Caribe particular. Não há praias em Havana, o longo cais do Malecon abriga muitas outras práticas. É um espaço amplo, de bate-papo, de pescaria, de tragos de rum, de comércio clandestino. Escambo, esmola, truques, fotografias. Toda gente o freqüenta, famílias, jovens, prostitutas, gays e travestis que fazem da balaustrada um ponto de encontro e de notoriedade dos novos tempos que já se anunciam. Turistas por toda parte só realçam o cosmopolitismo de uma cidade-ícone percebida em chevrolets, riquixás, ônibus decaídos e táxis tipo cupê. Verdadeiramente musical exibe pianos e batás. Menos mestiça que Salvador, os brancos são significativos. Os negros também e vê-se pessoas de todas as cores em todos os tipos de trabalho, tantas vezes interrompido por panes de eletricidade, incêndios, mansidão, tabacaria. Havana é pobre e luxuosa, é mística e guarda sua santeria em recinto familiar. Altares de xangô disputam espaço com televisores arcaicos, móveis kitch e altíssimos tetos de pé direito abrigam jóias decorativas. Havana é ousada, desconcertante, imprevista, uma cidade atemporal feita para ver e estar.