
largo da ribeira, 2008
Nasci no bairro da Ribeira, não em Lisboa ou Luanda, em Salvador da Bahia. É particular a Ribeira. Mas o bairro-mãe sempre soa singularmente. Os banhos de mar aos domingos acompanhados das batucadas na praia do Bogari eram tão envolventes quanto as noites de terça-feira quando a Filarmônica Carlos Gomes da rua Marquês de Santo Amaro soava como bálsamo para os ouvidos eruditos. Nos anos 60, aquela sonoridade suave era o contraponto da música da Jovem Guarda que soava estridente nas radiolas, animando as tardes de fim de semana.
O cotidiano na Ribeira incluía então filarmônicas, banhos de mar + festas de largo e feiras de mariscos na beira de cais do Recôncavo. Vendedores de livros iam de porta em porta: mitologia grega, enciclopédias, fábulas. O Egito fica na África? O Jornal da Bahia vinha diariamente. Nas rádios, MPB; na TV Chacrinha e Silvio Santos; no cinema, faroeste. No Brasil, ditadura, Jovem Guarda, Tropicália. No mundo, contracultura, black power, novidades tecnológicas.
Era longe a Ribeira. Havia o bairro, a cidade e a longínqua praia de Itapuã, que já foi local de veraneio para algumas famílias locais. Para chegar a Itapuã era preciso fazer uma longa viagem, contornando as duas pontas da península, que desenha de um lado, a Baía de Todos os Santos e de outro, o Oceano Atlântico. É linda a Ribeira. Há beleza em suas muitas praças mal urbanizadas, resquícios de parques, becos que desembocam no mar.
É diferente a Ribeira. Não era todo dia que se ia à cidade, ou seja, ao centro velho de Salvador. Aguardar o ônibus-lotação, ver a Igreja do Bonfim, subir o Elevador Lacerda, passear na rua Chile, lanchar na Lobrás... Esta sim era uma movimentação verdadeiramente urbana, bem diferenciada daquele ar interiorano que o bairro ainda guarda.