“Minhas primeiras lembranças são de um lugar chamado ‘Mbrom’, um pequeno povoado de Loumassi, capital de Achanti, quando esse reino deixou de ser parte da colônia britânica da Costa do Ouro e se transformou numa região da República de Gana. Nossa casa ficava em frente à de meus avós – onde moravam dúzias de parentes e dependentes de vovó, sob a direção de minha avó por afinidade ‘Tia Jane’, que fazia pão para centenas de pessoas de Mbrom e das áreas vizinhas – e a poucos metros, na mesma rua, das casas de muitos primos cujos graus de parentesco eram variáveis e geralmente obscuros. Perto do centro da segunda maior cidade de Gana, atrás de nossa cerca de hibiscos na ‘cidade-jardim da África Ocidental’, nossa vida era essencialmente a de um vilarejo, passada entre poucas centenas de vizinhos; daquela aldeia, íamos aos outros pequenos povoados que formavam a cidade. (...) Mas, de tempos em tempos, também íamos à terra natal de minha mãe, a Inglaterra, para temporadas com minha avó no West Country rural, retribuindo as visitas que ela nos fazia. (...) Se minhas irmãs e eu éramos ‘filhos de dois mundos’, ninguém se dava ao trabalho de nos dizer isso. (...) Quando cresci um pouco mais e fui para um colégio interno inglês, fiquei sabendo que nem todos tinham um tio libanês e primos americanos, franceses, quenianos e thais. E hoje, depois que minhas irmãs casaram com um norueguês, um nigeriano e um ganês, agora que vivo nos Estados Unidos, estou acostumado a ver o mundo como uma rede de pontos de parentesco” (Anthony Appiah, A casa de meu pai,1997, pp. 9-11).