“Minhas primeiras lembranças são de um lugar chamado ‘Mbrom’, um pequeno povoado de Loumassi, capital de Achanti, quando esse reino deixou de ser parte da colônia britânica da Costa do Ouro e se transformou numa região da República de Gana. Nossa casa ficava em frente à de meus avós – onde moravam dúzias de parentes e dependentes de vovó, sob a direção de minha avó por afinidade ‘Tia Jane’, que fazia pão para centenas de pessoas de Mbrom e das áreas vizinhas – e a poucos metros, na mesma rua, das casas de muitos primos cujos graus de parentesco eram variáveis e geralmente obscuros. Perto do centro da segunda maior cidade de Gana, atrás de nossa cerca de hibiscos na ‘cidade-jardim da África Ocidental’, nossa vida era essencialmente a de um vilarejo, passada entre poucas centenas de vizinhos; daquela aldeia, íamos aos outros pequenos povoados que formavam a cidade. (...) Mas, de tempos em tempos, também íamos à terra natal de minha mãe, a Inglaterra, para temporadas com minha avó no West Country rural, retribuindo as visitas que ela nos fazia. (...) Se minhas irmãs e eu éramos ‘filhos de dois mundos’, ninguém se dava ao trabalho de nos dizer isso. (...) Quando cresci um pouco mais e fui para um colégio interno inglês, fiquei sabendo que nem todos tinham um tio libanês e primos americanos, franceses, quenianos e thais. E hoje, depois que minhas irmãs casaram com um norueguês, um nigeriano e um ganês, agora que vivo nos Estados Unidos, estou acostumado a ver o mundo como uma rede de pontos de parentesco” (Anthony Appiah, A casa de meu pai,1997, pp. 9-11).
culturas negras no mundo atlântico
sound system em salvador; luta de arena em dakar; performances no harlem, ny; carnaval em londres; cafés literários na martinica; emancipation celebration em trinidad; salões de beleza afro em paris; artes visuais em luanda; festival de vodum em uidá. a terceira diáspora é o deslocamento virtual de signos - discos, filmes, cabelos, slogans, gestos, modas, bandeiras, ritmos, ícones - provocado pelo circuito de comunicação da diáspora negra. potencializado pela globalização eletrônica e pela web, coloca em conexão digital os repertórios culturais de cidades atlânticas. uma primeira diáspora acontece com os deslocamentos do tráfico de africanos; uma segunda diáspora se dá pela via dos deslocamentos voluntários, com a migração e o vai-e-vem em massa de povos negros. diásporas_estéticas em movimento.
livros completos para download
livro 1
livro 2
quem sou eu
- goli guerreiro
- antropóloga, viajante e fotógrafa amadora, registro cenas do cotidiano em cidades negras das américas do norte e do sul, caribe, europa, áfrica e brasil, sobre as quais pesquiso, escrevo e realizo mostras audiovisuais. meu porto principal é salvador da bahia onde moro. Goli edits the blog www.terceiradiaspora.blogspot.com from Bahia Salvador, is a traveller and amateur photographer who recorded scenes of daily life in the atlantic cities about which she writes and directs audiovisual shows. She has a post-doctorate in urban anthropology and is the author of the book "The Plot of the Drums - african-pop music from Salvador" and "Third Diaspora - black cultures in the atlantic world".
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
cidade velha

escultura de tatti moreno, salvador, 2012
“Visto da rua o prédio não parecia tão grande. Ninguém daria nada por ele. É verdade que se viam as filas de janelas até o quarto andar. Talvez fosse a tinta desbotada que tirasse a impressão de enormidade. Parecia um velho sobrado como os outros, apertado na Ladeira do Pelourinho, colonial, ostentando azulejos raros. Porém era imenso. Quatro andares, um sótão, um cortiço nos fundos, a venda do Fernández na frente, e atrás do cortiço uma padaria árabe clandestina. 116 quartos, mais de 600 pessoas. Um mundo. Um mundo fétido, sem higiene e sem moral, com ratos, palavrões e gente. Operários, soldados, árabes de fala arrevesada, mascates, ladrões, prostitutas, costureiras, carregadores, gente de todas as cores, de todos os lugares, com todos os trajes, enchiam o sobrado. Bebiam cachaça na venda do Fernández e cuspiam na escada, onde, por vezes, mijavam. Os únicos inquilinos gratuitos eram os ratos. Uma preta velha vendia acarajé e munguzá na porta. Do quarto andar desciam as vezes sons de violão e árabes trocavam língua no silencio dos quartos sem eletricidade. Mulheres do terceiro andar discutiam com mulheres do segundo e ouviam-se palavras cabeludas. De manhã, os homens saíam quase todos. O vozerio das mulheres aumentava. Lavavam roupa. Ruídos de máquinas de costura. A tosse de uma tuberculosa no sótão. Os homens voltavam à tarde, cansados. A escada os devorava um a um”(Jorge Amado, Suor, 1934).
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
cotidiano naif
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
terror e aventura
Ilustração de Athos Sampaio.
Capa do livro Terror e aventura, tráfico de africanos e cotidiano na Bahia.
Salvador, Editora Corrupio, 2012, de Elizabeth Rodrigues e Goli Guerreiro.
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cultura crioula
ilustração de athos sampaio
Quando os africanos foram trazidos para o Brasil tiveram
que deixar tudo. Mas não se pode apagar a experiência trazida no corpo e na
memória. Aqui recriaram formas de organizar o espaço, os lugares
sagrados, os ciclos do tempo, os dias dedicados aos deuses, as relações entre
as pessoas, as cores das roupas, as festas, a imaginação, os sonhos.
Da África, puderam também contar com as artes aprendidas,
as técnicas de trabalhar o ferro e o ouro, a música, a dança, o conhecimento das
plantas e outros muitos saberes resistiram às proibições da época do
escravismo. (trecho de terror e aventura).
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
em nome de alá
ilustração de athos sampaio, in terror e aventura.
“A rebelião de 1835 estava planejada para acontecer no amanhecer de um domingo, 25 de janeiro, dia de Nossa Senhora da Guia. Essa era, naquela época, uma grande celebração, parte do ciclo de festas do Bonfim, bairro ainda rural, cheio de roças, hortas, fazendas e engenhocas, distante cerca de oito quilômetros do centro urbano de Salvador. Domingo da Senhora da Guia – um bom dia para os escravos se rebelarem, já que estariam mais livres da vigilância senhorial. A escolha de dias santos, domingos e feriados para o exercício da rebeldia fazia parte do modelo de movimentação política dos escravos na Bahia e no mundo [...]"Joao José Reis sobre A revolta dos Malês.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
no engenho dos senhores
ilustração de athos sampaio in terror e aventura
Na
última década do século 16, os engenhos multiplicavam-se no Recôncavo. A vida
da colônia ficou mais intensa no entorno da baía.
A terra, o solo massapê, preto e argiloso, era muito bom para o cultivo da
cana. A mata foi dando lugar a plantação tão grande que parecia um mar, um mar
triste, que escondia um trabalho sem justiça e sem liberdade.
A produção do açúcar
dependia de um esforço pesado e da técnica em diversos setores – a limpeza dos
campos, o cultivo da cana, o corte, a extração do caldo, o cozimento até o
ponto de refinar os doces cristais – tudo era feito pelos escravizados. (trecho de terror e aventura).
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