







“Nem todos os negros querem voltar para a África. Há uma canção de reggae sobre isso: ’se você quiser ficar, fique, mas eu vou para a África’. Há outras maneiras de voltar para a África, de acordo com a justiça ou a verdade. Acredito em todas essas coisas, mas sou muito crítico em relação aos que querem inventar a África da sua própria imaginação, em vez de olhar como a África é, e de como precisa de nós da diáspora”. Paul Gilroy, sociólogo inglês. In A Tarde, 7/8/2006
“Podemos apenas repetir que a raça é uma coisa que nós inventamos e que hoje o melhor modo de reduzir o que sabemos sobre a biodiversidade humana ainda é o slogan ‘todos parentes, todos diferentes’”. Guido Barbujani, geneticista italiano. In A invenção das raças, 2007, p.165.
“Sonhei esta noite que estava
parte 1

O cotidiano na Ribeira incluía então filarmônicas, banhos de mar + festas de largo e feiras de mariscos na beira de cais do Recôncavo. Vendedores de livros iam de porta em porta: mitologia grega, enciclopédias, fábulas. O Egito fica na África? O Jornal da Bahia vinha diariamente. Nas rádios, MPB; na TV Chacrinha e Silvio Santos; no cinema, faroeste. No Brasil, ditadura, Jovem Guarda, Tropicália. No mundo, contracultura, black power, novidades tecnológicas.
Era longe a Ribeira. Havia o bairro, a cidade e a longínqua praia de Itapuã, que já foi local de veraneio para algumas famílias locais. Para chegar a Itapuã era preciso fazer uma longa viagem, contornando as duas pontas da península, que desenha de um lado, a Baía de Todos os Santos e de outro, o Oceano Atlântico. É linda a Ribeira. Há beleza em suas muitas praças mal urbanizadas, resquícios de parques, becos que desembocam no mar.
É diferente a Ribeira. Não era todo dia que se ia à cidade, ou seja, ao centro velho de Salvador. Aguardar o ônibus-lotação, ver a Igreja do Bonfim, subir o Elevador Lacerda, passear na rua Chile, lanchar na Lobrás... Esta sim era uma movimentação verdadeiramente urbana, bem diferenciada daquele ar interiorano que o bairro ainda guarda.
